Quanto vale uma obra de arte?

Investir nesse mercado é para quem não teme o risco e olha a longo prazo em busca de retorno financeiro

Mesmo no imaginário das pessoas menos familiarizadas com o assunto, arte está associada a valor – não apenas subjetivo, mas também financeiro. Investimento para quem tem gosto por risco e a paciência exigida pelo longo prazo, parece mais difícil antecipar valor (ou preço) no volúvel terreno da estética do que estimar a variação futura de uma ação. Mas os conhecedores afirmam que, com base no entendimento do trabalho do artista, seja possível identificar os que irão avançar com consistência, sem perder valor ao longo do tempo.
“Uma artista como a Mira Schendel, redescoberta nos últimos 10 anos, morreu sem mercado, há 21 anos. Uma monotipia (tipo de gravura em cópia única) dela custava US$ 100 quando ela ainda estava viva. Hoje, esses, que são os seus trabalhos mais simples, não custam menos de US$ 10 mil”, diz Socorro de Andrade Lima, sócia da Galeria Millan. “O que explica essa diferença de preços é que existem trabalhos muito difíceis, que demoram algum tempo para serem valorizados.” Vários outros artistas de assimilação complexa poderiam ser acrescentados à lista, como Hélio Oiticica e Lygia Clark, observa Luisa Strina, da Galeria Luisa Strina.
Van Gogh é um ícone da pintura que, em vida, se acostumou a estocar quadros em casa por absoluta falta de compradores – à exceção de Theo, o irmão, para quem escrevia cartas onde as discussões sobre arte eram tão frequentes quanto os pedidos de ajuda financeira. Em 1990, o “Retrato do Dr. Gachet” foi arrematado por US$ 82 milhões por um colecionador japonês - o quadro permanece na lista das pinturas mais caras da história, embora, de lá para cá, algumas telas, de artistas tão diversos quanto Klimt e Jackson Pollock, tenham superado com folga a impressionante marca de US$ 100 milhões. No extremo de Van Gogh, o que não tem liquidez em uma época pode ser visto como tesouro pela posteridade.
“O desenvolvimento do mercado da arte ocorre paralelamente ao do próprio capitalismo. E a excepcionalidade, o caráter único de cada obra, é o que define o seu valor numa era de produção econômica em massa”, observa a professora emérita da Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo e pesquisadora da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Diva Pinho. “No século 19, houve uma diversificação dos canais de distribuição de arte e da própria produção que, a partir do Impressionismo, se descola dos padrões acadêmicos. No século 20, as galerias se afirmam como validadoras da arte”, acrescenta a professora, que estuda as conexões entre arte e economia.


Iniciando uma coleção

Apesar das cifras milionárias frequentemente associadas à “excepcionalidade” da produção artística, a possibilidade de iniciar uma coleção está aberta também a bolsos menos recheados do que os de magnatas japoneses. Na mais recente edição da SP-Arte, feira de arte contemporânea realizada em São Paulo, em maio, cerca de 80 galerias ofereceram trabalhos artísticos por valores a partir de R$ 300.
Mesmo com um orçamento modesto é possível adquirir obras de bons e promissores artistas”, diz a diretora da SP-Arte, Fernanda Feitosa. “Poder associar investimento e prazer confere uma dimensão muito diferente do que apenas investir esperando um retorno financeiro. Um CDB não pode ser pendurado na parede. O retorno pessoal tem uma dimensão distinta”, acrescenta ela.
“Há novos artistas com trabalhos que podem ser adquiridos por R$ 1 mil. Outros, com carreira mais longa em exposições e bienais, têm obras a partir de R$ 10 mil”, afirma Baixo Ribeiro, sócio da Galeria Choque Cultural, entre as muito ativas na promoção de uma das vertentes que mais crescem no mercado brasileiro: a jovem arte urbana com matriz na linguagem do grafite e dos quadrinhos. Profissionais na faixa de até 40 anos, de áreas tão distintas quanto finanças, moda ou publicidade, movimentam esse nicho. “São pessoas que em vez de comprar outro carro ou pensar em lancha, começam a formar coleções.”
Este é o caso do publicitário German Carmona, de 33 anos, que possui 45 trabalhos, entre telas, gravuras e fotografias. “Desde que voltei de um mestrado em Londres, passei a acompanhar o circuito de São Paulo, especialmente artistas com carreiras ainda recentes, urbanos, que são os que eu gosto e posso comprar”, diz o publicitário, que estabeleceu um teto de R$ 6 mil por peça e recorre a parcelamentos quando necessário.
“Esta coisa de teto é um problema, porque às vezes se perde algumas boas oportunidades.” Ele cita o caso de uma tela do artista Titi Freak que lhe foi oferecida algum tempo atrás. “Gostei, mas fiquei na dúvida: estava acima do meu teto. Dois anos depois, uma amiga minha comprou a mesma tela por 12 vezes mais”, diz Carmona, ressaltando que artistas jovens, com carreiras ainda em formação, podem apresentar grande variação de preços em prazos curtos. “O risco não pode ser desprezado, porque as carreiras desses artistas ainda não são sólidas”, ressalva o colecionador.
Caso a perspectiva seja apenas a valorização dentro de um prazo definido, é melhor buscar outras opções. “Se você me perguntar sobre arte exclusivamente como investimento financeiro, a minha resposta será: um péssimo negócio. O risco é grande e o retorno é de longuíssimo prazo, de uma geração para outra”, afirma Ribeiro, da Choque Cultural.
“A arte precisa ser percebida como um investimento cultural, não como um objeto que precisará ser vendido em certa data para obter retorno. Se este for o caso, o melhor é pensar em alternativas mais líquidas”, acrescenta ele. Opinião compartilhada por Alexandre Gabriel, diretor da Galeria Fortes Vilaça, que mantém no acervo alguns dos mais prestigiados artistas brasileiros atuais, como Adriana Varejão, Beatriz Milhazes e Vik Muniz.
“Em arte, o retorno inicial é sempre o prazer de possuir determinada obra. Eventualmente, pode significar retorno financeiro, mas este não deve ser o ponto de partida. Não é uma bolsa ou um fundo – embora existam pessoas que cometam esse erro, e tratem (uma coleção) como carteira de investimentos”, avalia Gabriel.


Canais de negociação

Feitas essas ressalvas, como em qualquer mercado, o canal de negociação ajuda a explicar a formação de preços nos domínios artísticos. Assim como nas transações de debêntures ou ações, na arte também existe um mercado primário e outro secundário. No Brasil, o primário reúne as galerias que mantêm relações de exclusividade com os artistas para venda dos novos trabalhos em determinadas praças, como São Paulo e Rio. As galerias que trabalham com os mesmos artistas em cidades – e mesmo países - diferentes normalmente mantêm um diálogo sobre preços, descontos e formas de pagamento, de forma a não haver distorções significativas que afetem o “planejamento” da carreira de determinado profissional.
“No mercado secundário é onde estão as maiores oportunidades de especulação”, explica Gabriel, referindo-se às obras que já integram coleções particulares e, em transações entre partes, mudam de mãos. Nesse grupo, costumam estar trabalhos de artistas mortos, obras de fases anteriores de artistas que ainda estejam produzindo ou mesmo séries recentes desses artistas que tenham se esgotado sem atender à demanda.


Vício pela arte

“Na minha experiência, o que movimenta mesmo o mercado é quem desenvolve o vício pela arte; quem, no limite, chega a colecionar por compulsão”, observa Luisa Strina, que admira o colecionador que busca sempre a informação e a construção de acervos coerentes, sem concessões a modismos. “Não é incomum ver aquelas coleções que eu chamo de prêt-à-porter, com todos os artistas de sucesso do momento. Fica previsível.” Sucesso não necessariamente significa modismo, ressalva Luisa, acrescentando que também gosta desses trabalhos. “Mas é preciso não ter medo de errar, saber apostar no diferente.”
As galerias que combinam artistas consagrados com os ainda promissores normalmente aproveitam as melhores margens dos mais velhos para investir no desenvolvimento dos recém-chegados. “O investimento das galerias não é pequeno: varia da montagem de exposições individuais até a participação em grandes feiras de arte, como a Basel, na Suíça”, explica Socorro, da Millan.
“O currículo – a participação em eventos e museus significativos – é fundamental para a valorização do artista ao longo do tempo. E o investimento das galerias para que o artista desenvolva a sua carreira é brutal”, acrescenta Luisa Strina, ressaltando que os cuidados se estendem da produção de catálogos e livros até as participações nas principais feiras internacionais, que são “caríssimas”.

Fonte: Agência Estado -São Paulo-Brasil
Luís Eduardo Leal - AE
http://aeinvestimentos.limao.com.br/especiais/esp31798.shtm

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