ACABO DE RECEBER A NOTÍCIA DE QUE GANHEI MAIS UM PRÊMIO. FOI NA FUNDAÇÃO ESTADUAL DA BRIGADA MILITAR, ONDE HOUVERAM 968 INSCRITOS ENTRE ESCRITORES PORTUGUESES E BRASILEIROS. TIREI O QUARTO LUGAR, O QUAL ACHEI MUITO BOM, DEVIDO AO GRANDE NÚMERO DE INSCRITOS. O PRÊMIO FOI NA CATEGORIA CONTO O QUAL ADICIONO ABAIXO:


CONSCIÊNCIA TRANQUILA
MARIA FLOR
Joaquim levantou-se quase de madrugada, aliás, madrugada muito fria na cidade de Rio Grande. No rádio falavam em qualquer coisa entre cinco graus ou algo assim. Homem honesto, trabalhador, Joaquim acostumou-se com o vai e vem do desemprego, e hoje cata lixo para a reciclagem. Tomou um café da manhã muito ralo e deixou o pouco que restou para sua mulher e seus quatro filhos, que mais tarde acordariam para ir à escola e, à tarde, o ajudariam na coleta de lixo. Ele pegou o seu único instrumento de trabalho, que era uma bicicleta onde ele mesmo fez e acoplou uma espécie de reboque de madeira com rodas de carroça, onde ele armazena e transporta todo o lixo coletado.
Naquela manhã, Joaquim estava muito desanimado, pois a única televisão que possuíam havia estragado, sem a menor chance de adquirir outra ou até consertar esta. Eles sabiam que trabalhavam para sobreviver.
Joaquim começou o seu dia catando lixo na avenida principal, na entrada da cidade. Ainda estava escuro e poucos carros circulavam pela rua. Ouviam-se barulhos de ônibus, sirenes de ambulâncias e até trotar de cavalos, das carroças dos feirantes. Passou pelo posto de gasolina e recolheu algumas garrafas pet. Na frente da padaria, arrecadou muitas caixas de papelão, depois dali foi para frente da agência bancária, pois o lixo era rico em papéis. Começou a revirar tudo e colocar em sua carrocinha. Mas ao pegar uma placa de papelão, viu que algo pesado forçava a placa. Sentiu que algo caiu ao chão. Como ainda estava escuro, teve de se abaixar para ver o que era. Então viu que era uma espécie de pasta de couro. Era um pouco maior que um caderflex e estava pesada. Joaquim olhou para todos os lados e ficou visivelmente nervoso. Alguém havia perdido aquela pasta na frente do banco e havia ficado de baixo de todos os papelões que o pessoal da limpeza colocava na frente da agência, no final do dia. Ficou pensando mil coisas, mas teve logo o impulso: “Ora, não é meu, preciso localizar o dono e devolver! Mas como achar o dono? Ah! Mas é claro! Vou abrir a pasta e vou achar o endereço, um telefone.” Joaquim estava sozinho ali. Somente o ônibus havia passado com meia dúzia de passageiros. Ele prontamente sentou-se no meio fio da calçada, colocou a pasta no colo e abriu. Quando ele abriu, um grande choque lhe percorreu o corpo todo. A pasta estava cheia de dinheiro! Cerca de cinqüenta mil reais! Sim, eram dez maços de cinco mil, corretamente acomodados. Era por isso que ela estava tão pesada. Joaquim fechou a pasta imediatamente, temendo que alguém visse. Seu coração estava em disparada. Nunca vira tanto dinheiro em sua vida. Com ele poderia comprar uma televisão nova. Será que dava para comprar uma casa nova? Ele não tinha noção do valor. Ligeiramente acomodou a pasta no meio de toda a sua coleta e seguiu seu caminho, ainda com as pernas bambas. Sua cabeça era um turbilhão de idéias: ”Ora, seu idiota, esta pasta tem dono, precisa olhar lá dentro para ver se tem endereço! Ora essa, eu não roubei, apenas achei, portanto é meu! Mas se tiver endereço lá dentro é roubo, sim senhor!” Sem perceber, Joaquim parou de coletar o lixo no caminho para o centro da cidade, e percorria as ruas a passos largos. Seu destino era a praça no centro, onde pretendia trancar-se no banheiro e descobrir o dono do dinheiro. Seu desespero era tanto, que levou minutos até chegar lá. Olhou bem para os lados, viu que ninguém o observava, enrolou a pasta num pouco de jornal, para não dar na vista e entrou no banheiro público. Trancou-se, baixou a tampa do vaso e sentou-se. Abriu a pasta e foi afastando os maços de dinheiro. Lá em baixo, havia muitos papéis: contas quitadas, bilhetes dispersos, jogos de mega sena e, de repente uma conta de telefone. Estava ali! Tudo o que ele precisava era ligar ou visitar o dono da pasta. Até o nome ele já sabia: Gregório Silva Medeiros. Ah! E o pior de tudo, era bem perto dali, mais ou menos umas duas quadras, na Av Silva Paes. Joaquim fechou os olhos e respirou fundo: ”Se eu não devolver este dinheiro, serei um ladrão!” Joaquim voltou para o seu trabalho e saiu pelas ruas para descobrir onde era a casa. Passou pela frente: bela casa! Um bom sobrado, todo de pedras, com uma grande garagem, talvez coubessem dois carros. Era muito cedo para bater na casa dos outros, certamente estavam dormindo. Voltaria mais tarde. Seguiu catando coisa pelas lixeiras, ganhou uma caneta de café quente e um pão com margarina que sempre recebia de um português que tinha padaria. Quando percebeu, o sol já estava alto e as ruas estavam cheias de pessoas. Então Joaquim decidiu que era hora de ir à casa do Sr Gregório. Chegou lá e apertou o interfone, esperou alguns segundos e uma voz feminina atendeu:
- Pois não!
- É aqui que mora o Sr Gregório?
- É sim, o que deseja?
- Eu precisava falar pessoalmente com ele. É só com ele mesmo, minha senhora.
- Olha, vou ver se consigo agendar algum horário. O Seu Gregório não atende ninguém sem agendar. Eu sou a empregada dele. É que ele mora aqui sozinho. Seu Gregório não tem família, não senhor. Aguarde um pouquinho, tá bem?
A em pregada afastou-se e Joaquim ficou pensando como aquele homem vivia naquela casa enorme sozinho, sem família. Joaquim sentiu-se feliz por ter a sua, mesmo na pobreza. A empregada demorou alguns minutos e Joaquim achou que ela havia se esquecido dele, mas de repente a voz dela irromper no interfone:
- Olha, como ele não lhe conhece, ele quer saber o que é.
- Minha senhora, eu quero falar só com ele. É um assunto de muito interesse para ele.
- Aaahhh! Bom, então neste caso, volte amanhã de manhã, está bem?
- Mas minha senhora é sobre uma...
Quando Joaquim ia falar que era sobre a pasta perdida a empregada interrompeu bruscamente:
- Até amanhã, meu senhor!
E desligou o interfone na cara de Joaquim. Ele ficou ali parado, imóvel com uma imensa vontade de nunca mais voltar lá, mas o seu senso de honestidade lhe dizia que precisava devolver aquele dinheiro. Quem sabe este senhor lhe daria alguma recompensa pelo achado. O dia foi transcorrendo como sempre: muito trabalho, muito esforço físico, na hora do almoço pouca comida. Joaquim chegou em casa para almoçar em total silêncio, comeu pouco, mas não conseguiu desabafar com sua esposa o que lhe havia acontecido. Durante à tarde, voltou para o trabalho com seus filhos. No meio da tarde o filho mais novo, já quase chorando, lhe dizia:
- Pai, compra alguma coisa, tô com fome!
- Vamos lá na padaria do Seu Amaro e vou pedir café e pão pra vocês.
Assim ele fez. Pediu ao português que desse café e pão para os seus quatro meninos em troca de não lhe dar café e pão de manhã, durante os próximos quatro dias.
- Ora pois Joaquim, e achas que não vou te dar um lanche? Ora pois, catas todo lixo da minha porta!
Terminado o dia, Joaquim vendeu a carga de lixo, passou no armazém perto de casa, e comprou algumas coisas para a sua esposa preparar na janta. Aqueceu água para tomar banho, comeu em silêncio e não conseguia pregar o olho, apezar de todo o cansaço. Sua família já dormia o sono dos justos e Joaquim levantou-se e foi até a cozinha, onde havia escondido, num canto de um armário, a pasta enrolada em jornal. Começou a manusear o dinheiro. A dúvida lhe doía, seus filhos passavam privações, sua casa era precária, mas ele tinha certeza que aquele dinheiro não lhe pertencia. Joaquim voltou para a cama e lá nas tantas conseguiu dormir.
O dia amanheceu e Joaquim apressou-se em sair. Começou seu dia como sempre e catava tudo afoitamente, contando as horas para voltar naquela casa, quando enfim o momento chegou. Joaquim postou-se à frente da casa e apertou o interfone, já com a pasta de baixo do braço. A empregada atendeu novamente:
- Pois não?
- Eu estive aqui ontem, preciso falar com o Seu Gregório, a senhora me pediu para voltar hoje.
Ele só ouviu ela colocar o interfone no gancho e depois de alguns segundos a porta se abriu.
Quando Joaquim percebeu um homem de mais ou menos setenta e poucos anos, que apresentava paralisia do lado esquerdo do corpo devido a uma isquemia, e de muito mau humor:
- Diga logo o que quer, pois não lhe conheço. Não gosto de receber visitas.
Joaquim estendendo a pasta disse:
- Vim lhe devolver isto, acho que lhe pertence.
- É claro que me pertence! Estava desesperado atrás dela, pois não sabia onde havia perdido, pois como vê tenho muita dificuldade para me locomover. Obrigado pela sua gentileza, mas não me sinto na obrigação em recompensá-lo, pois a pasta me pertence. Vejo que tem bom senso, devolvendo o que não lhe pertence. O dinheiro que está aqui também não é seu: é todo meu. Agora vá!
Joaquim sentiu-se bastante deslocado com a dureza daquele homem que, com tanto dinheiro, era de uma pobreza deprimente. Num lampejo de saberia, Joaquim ergueu o rosto e falou olhando dentro dos olhos daquele homem:
- Eu já fui recompensado, meu senhor: tenho família, tenho trabalho e tenho coragem de ser honesto. Que Deus lhe acompanhe, seja feliz!
E lá foi Joaquim, com sua bicicleta-carroça tratar de garantir o seu dia.

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Comentário de António Dulcídio em 2 julho 2009 às 10:10
Os meus parabéns. Cumprimentos.
Comentário de Deisi Porto em 29 junho 2009 às 21:31
POR GENTILEZA LEIAM E DEEM SUAS OPINIÕES.
GRATA
DAISI

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